A dificuldade de acesso a exames para investigação de alterações nas mamas preocupa pacientes em Cuiabá, Mato Grosso. Entre janeiro e outubro de 2026, a capital contabilizou 4.674 solicitações pendentes de procedimentos relacionados à saúde mamária, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde.
Desse total, 4.640 pedidos são de moradores de Cuiabá e outros 34 correspondem a pacientes de municípios do interior encaminhados pela regulação municipal. A maior parte da demanda envolve ultrassonografias mamárias bilaterais, exame utilizado na avaliação de alterações e nódulos.
Na rede estadual, a Secretaria de Estado de Saúde informou que outras 510 pessoas aguardavam procedimentos relacionados à investigação de doenças mamárias em Mato Grosso.
Paciente precisou vender parte do próprio negócio
Entre as pessoas afetadas pela demora está Raiany Júlia Nascimento, que descobriu um câncer de mama aos 27 anos. Atualmente com 30, ela percebeu um nódulo na mama direita durante o banho, em 2023.
Sem conseguir avançar rapidamente na investigação pelo sistema público, decidiu pagar uma ultrassonografia particular. Em janeiro de 2024, recebeu o diagnóstico de câncer de mama triplo negativo.
A necessidade de realizar novos procedimentos trouxe dificuldades financeiras. Segundo Raiany, cada biópsia custava aproximadamente R$ 800. Para conseguir pagar os exames, ela vendeu máquinas, equipamentos e quase toda a estrutura de sua papelaria personalizada, que representava sua fonte de renda. Também organizou campanhas para arrecadar recursos.
A paciente conseguiu realizar a maior parte do tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo quimioterapia, cirurgia, radioterapia e reconstrução mamária.
Atualmente em fase de remissão, Raiany ainda convive com consequências físicas e emocionais decorrentes do tratamento, como alterações hormonais, menopausa precoce, fadiga e limitações físicas. Ela também destaca a necessidade de acompanhamento psicológico durante a recuperação.
Especialista alerta para a importância do diagnóstico
O mastologista Luciano Florisbelo ressalta que a agilidade na realização dos exames é fundamental para que alterações suspeitas sejam investigadas e, quando necessário, o tratamento seja iniciado o quanto antes.
Segundo o especialista, o atendimento não deve se limitar à realização de exames de imagem. É necessário garantir também consultas com profissionais especializados, biópsias e encaminhamento adequado.
Ele aponta que a extensão territorial de Mato Grosso e a distribuição desigual de equipamentos de diagnóstico dificultam o atendimento, especialmente para mulheres que vivem em municípios mais distantes dos centros de referência.
O médico reforça que nem todo nódulo ou alteração mamária representa câncer, mas qualquer sinal suspeito precisa ser avaliado por um profissional de saúde. A identificação da doença em estágios iniciais pode ampliar as possibilidades de tratamento e melhorar as chances de recuperação.
Governo prevê ampliação dos exames
Como medida para reduzir a demanda, o programa estadual Fila Zero prevê a contratação de 2.531 mamografias, além de outros serviços especializados. Entretanto, até a divulgação das informações, a Secretaria de Estado de Saúde não havia apresentado uma previsão para o início dessas contratações.
Os números evidenciam o desafio de garantir acesso oportuno à investigação de doenças mamárias e reforçam a necessidade de ampliar a oferta de exames e o atendimento especializado na rede pública.

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