Mato Grosso vive uma expansão sem precedentes do Comando Vermelho (CV), que encontrou dentro das prisões o ambiente ideal para recrutar e fortalecer sua base criminosa.
A afirmação é do supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF-MT), desembargador Orlando Perri, que classificou o sistema prisional do Estado como “um verdadeiro centro de batismo” da facção. Segundo ele, pessoas que entram nas cadeias sem qualquer vínculo com organizações criminosas acabam sendo forçadas a se filiar ao CV para sobreviver.
Em pouco mais de uma década, o número de membros da facção cresceu mais de 7.200% em Mato Grosso. Criado em 2012 dentro da Penitenciária Central do Estado (PCE), o Comando Vermelho de Mato Grosso surgiu sob a liderança de Sandro da Silva Rabelo, conhecido como “Sandro Louco”, juntamente com Miro Arcângelo Gonçalves de Jesus, Renildo Silva Rios e Renato Sigarini.
Naquela época, os fundadores redigiram o estatuto do CV/MT e iniciaram os primeiros “batismos” dentro do presídio. Dois anos depois, durante a operação Grená, a Polícia Civil desarticulou parte do grupo, que possuía cerca de 450 integrantes. Mesmo com as lideranças presas, o número não parou de crescer: em 2017, já eram 2,5 mil membros; em 2018, 7 mil; e, atualmente, segundo Perri, o total ultrapassa 33 mil filiados. “O sistema prisional é um centro de batismo do CV. Pessoas que entram no sistema, muitas vezes sem ligação com o crime organizado, acabam se filiando para sobreviver. É um fenômeno preocupante”, declarou o desembargador.
Perri relatou ainda um episódio emblemático: após a transferência de líderes para um presídio com o objetivo de enfraquecer a facção, em uma única noite, 50 novos presos foram “batizados”. Para ele, a expansão também é reflexo da “glamourização do crime”, que atrai jovens em busca de status e respeito. “Há jovens que compram tornozeleiras apenas por ostentação. O crime virou símbolo de poder. Se quisermos reduzir a violência, precisamos atacar as causas sociais — educação, saúde e oportunidades —, não apenas endurecer a repressão”, afirmou o magistrado.
Recrutamento e controle
A professora Vladia Soares, especialista em Criminologia e Direito Penal da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que as facções no Brasil nasceram dentro dos presídios — e continuam sendo geridas de lá. Mesmo atrás das grades, líderes mantêm contato com o mundo externo por meio de celulares clandestinos, advogados, familiares e membros de confiança.“O CV cresceu em Mato Grosso pelo controle do tráfico de drogas, aproveitando a localização estratégica do Estado, rota para a Bolívia e outros países produtores. Além do tráfico, atua em roubos, extorsões, sequestros e lavagem de dinheiro. Esse poder econômico garante recrutamento constante”, destaca.
Vladia pontua que a superlotação, a falta de agentes e a ausência de políticas de ressocialização criam o ambiente ideal para a atuação das facções. Segundo ela, as organizações controlam alas inteiras e impõem regras internas, muitas vezes mais rígidas e eficazes que as do próprio Estado. “As prisões viraram escolas do crime. A repressão policial sozinha não basta. Enquanto o Estado continuar ausente das periferias e sem políticas sociais, as facções ocuparão esse espaço”, alerta a criminóloga.
Provas recentes e investigações
Um relatório técnico da Polícia Civil reforça a gravidade do cenário. Em agosto, agentes encontraram um celular na cela 11 do Raio 08, setor de segurança máxima da PCE. A análise dos dados revelou conversas sobre o batismo de um novo integrante e menções diretas a Sandro Rabelo, Renildo Rios, Cecliênio Lourenço de Araújo, Sidney Bettcurt e Norivaldo Cebalho, apontados como “padrinhos” da cerimônia criminosa.
O juiz Geraldo Fidelis determinou que a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus) esclareça os fatos, incluindo a identificação dos presos envolvidos e as medidas adotadas após a apreensão.
O outro lado
Em nota, a Sejus informou que atua continuamente para identificar, monitorar e conter a atuação de facções dentro das unidades prisionais. Entre as medidas do Programa Tolerância Zero contra o Crime Organizado, estão:
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Separação de líderes de facções,
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Monitoramento de movimentações atípicas,
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Revistas estruturadas e operações de varredura,
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Parceria com forças especializadas e órgãos de inteligência.
A secretaria reafirmou o compromisso com a segurança e destacou que as ações buscam enfraquecer o poder das facções e impedir a expansão da criminalidade dentro e fora dos presídios.
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